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28/09/2008 11:21h

Opinião

Cada um no seu quadrado

Que o nobre leitor não julgue apressadamente as frases que se seguirem aos dois pontos: o bicho da foto acima, conhecido como hírax, é um dos parentes vivos mais próximos dos elefantes; baleias e porcos deveriam ser classificados no mesmo grupo; os peixes e os répteis não existem.

Releve, pois há método nessa loucura. Afirmações desse tipo são só um reflexo das informações cada vez mais detalhadas que os biólogos andam obtendo sobre o parentesco entre os seres vivos. E, se a proposta mais radical inspirada por esses dados realmente “pegar”, as classificações de bichos e plantas que todos decoramos (ou tentamos decorar) na escola podem cair por terra, ao menos da maneira como são definidas tradicionalmente.

O problema com a classificação tradicional – como a velha listinha dos vertebrados, “peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos” – é o anacronismo puro e simples. A taxonomia, ou sistemática, ramo da biologia responsável por colocar cada espécie no seu devido lugar, é uma ciência do século 18. Criada pelo sueco Carl von Linné (1707-1778), ou Lineu, a taxonomia é do tempo em que cada tipo de ser vivo era visto como uma entidade fixa e imutável, colocada na Terra há poucos milhares de anos pela intervenção direta de Deus.

Sob todos os aspectos, o trabalho de Lineu marcou época. Ele ajudou a instituir a designação latina em duas partes – a primeira relativa ao gênero e a segunda à espécie, como em Homo sapiens – para todos os seres vivos. Estabeleceu também agrupamentos hierárquicos de animais e plantas, começando no nível da espécie e “subindo” para o gênero, a ordem (a nossa é a dos primatas, que inclui todos os macacos e assemelhados), a classe (mamíferos, no nosso caso) e o reino (animal). Semelhanças anatômicas ajudavam a decidir em que gaveta colocar cada espécie. Tudo muito bonito e organizado. O problema é o que aconteceu um século depois.

A teoria da evolução aconteceu, para ser exato. Charles Darwin publicou A Origem das Espécies em 1859, 101 anos depois de Lineu usar o binômio espécie-e-gênero para designar animais pela primeira vez. E Darwin já chegou enfiando o pé na porta sobre o assunto: “Nossas classificações deverão se tornar, até onde for possível adequá-las, genealogias”, dizia ele. O tempo passou, e a teoria evolutiva se tornou a base lógica para todos os fenômenos ligados aos seres vivos – menos quando se tratava de organizá-los, dar-lhes nome e agrupá-los. Eis aí a incongruência e o anacronismo, um problema que a proposta ousada de nomenclatura conhecida como PhyloCode tem como objetivo solucionar. Se quisermos mesmo completar a revolução darwinista, argumentam eles, temos de mexer nesse vespeiro.

Pondo ordem na casa
O PhyloCode, ou Código Internacional de Nomenclatura Filogenética, tem tomado corpo devagarzinho, desde os anos 1990, modelado por um time internacional de biólogos sistematas (especialistas em classificação) e capitaneado por figuras como Kevin de Queiroz, um americano de origem mexicana e japonesa que trabalha no Museu Nacional de História Natural dos EUA. Queiroz, um especialista em cobras e lagartos (literalmente!) com quem já tive o prazer de falar algumas vezes, é uma daquelas figuras que misturam simpatia e teimosia em partes iguais. Mesmo com a desaprovação dos atuais manda-chuvas da nomenclatura biológica, como o pessoal do ICZN (Código Internacional de Nomenclatura Zoológica), ele e seus colegas continuam refinando o PhyloCode e preparando o dito cujo para implementação – coisa que ainda não tem prazo definido para acontecer.

Os proponentes do PhyloCode desejam, para começo de conversa, tornar totalmente opcional (e, de preferência, descartável) o uso de categorias como família, ordem, classe e até gênero. Só seriam preservadas os “andares” classificatórios que têm real significado biológico, dizem eles: espécie e clado. Essa última palavra, de origem grega, quer dizer algo como “galho” e se refere a qualquer grupo de organismos que estejam ligados entre si por um ancestral comum. No conteúdo do clado, portanto, considera-se esse ancestral e todos os seus descendentes, sem deixar ninguém de fora.

Isso é importante, dizem os partidários da nomenclatura filogenética, porque muitos grupos da classificação tradicional de animais (ou plantas) são verdadeiros sacos de gatos do ponto de vista da biologia evolutiva. Tomemos os répteis, por exemplo. Tradicionalmente, eles são vistos como uma classe, “degrau” do sistema de Lineu que está em pé de igualdade com mamíferos e aves. O problema é que há uma montanha de evidências, seja morfológicas, seja genéticas, que demonstram que os emplumados atuais são uma derivação relativamente recente dos arcossáurios, o subgrupo reptiliano que inclui os crocodilos. Do ponto de vista evolutivo, as aves são um tipo de arcossáurio.

O mesmo vale para as baleias e os porcos, exemplificados lá em cima, ou para os “peixes” (na verdade, o parentesco de certos tipos de peixe com os vertebrados terrestres chega a ser maior do que o que une esses animais aquáticos ao resto dos peixes). De fato, hoje sabemos com razoável grau de certeza que baleias, golfinhos e companhia descendem de um mamífero terrestre com número par de cascos nas patas – um membro do grupo que engloba porcos e hipopótamos, em outras palavras. De novo, no entanto, a nomenclatura atual classifica os dois bichos como membros de ordens isoladas e hierarquicamente indistinguíveis, o que, de fato, não faz sentido.

Alguma forma de classificação filogenética também seria uma mão na roda para reconhecer de vez relações evolutivas entre animais cuja morfologia se tornou muito especializada, mas cujo DNA e registro fóssil ainda carregam marcas do parentesco antigo. É o caso do fofíssimo hírax lá de cima, dos elefantes e de bichos ainda mais estranhos, como os porcos-formigueiros, representados por uma mãe e seu filhotinho aqui embaixo. Todas essas criaturas podem ser incluídas no grupo dos afrotérios, mamíferos de origem exclusivamente africana que descenderiam de um ancestral comum que existiu há dezenas de milhões de anos, quando a África inteira era uma ilha.
Fórmula da vida
Por enquanto, os PhyloCoders propõem manter os bons e velhos binômios latinos para designar espécies, mas querem que eles se tornem um nome duplo, e não mais uma designação que inclua a categoria de gênero também. Mais importante ainda, a definição de um clado qualquer deixa de lado detalhes anatômicos, ou até moleculares, para se referir diretamente à ascendência comum, num tipo de fórmula. Uma possível definição para o clado dos mamíferos, por exemplo, seria: “o clado contendo o ancestral comum de Homo sapiens + Didelphis marsupialis [gambá] + Ornithorhynchus anatinus [ornitorrinco] + Tachyglossus aculeatus [equidna] e todos os seus descendentes”. Os classificadores teriam liberdade para usar os antigos nomes lineanos para esse tipo de agrupamento, desde que eles não fossem mais atrelados a categorias hierárquicas fixas, como ordem ou classe.

Os críticos do novo código desceram o malho nesse aspecto da proposta, e não é difícil entender o porquê. Definir grupos de seres vivos dessa maneira implica necessariamente numa hipótese sobre sua filogenia, ou seja, sobre sua relação de parentesco – e essa hipótese pode variar com o tempo, e até com o cientista que a está explicitando. Seria uma porteira aberta para a bagunça, dizem eles.

A resposta e o mantra dos PhyloCoders é, não sem alguma razão, “estabilidade é ignorância”. Nada em ciência de verdade está fechado à revisão e, no longo prazo, é bom que as classificações mudem para refletir a descoberta de novos dados e o aparecimento de novos consensos no meio científico. A alternativa é manter o anacronismo e se conformar com a arbitrariedade das classificações, argumentam.

É indiscutivelmente cedo demais para saber no que vai dar todo esse debate. Numa coisa, porém, não é possível voltar atrás: a constatação de que o álbum de família dos seres vivos é muito mais esquisito e digno de admiração do que a superfície deixa entrever.